O que é Maya?

O que é Maya?


 

 

 

O que é Maya?

Maya, é muitas vezes entendida como a grande Ilusão, que confunde com seu véu, a percepção que os seres humanos têm da Realidade. É um complexo e misterioso conceito da tradicional sabedoria indiana.

Não tenho a ousadia de querer explicá-lo! Rsrsrs

Melhor deixar que o grande deus Visnu nos esclareça, através de um de seus maravilhosos mitos.

 

O herói desta estória é Narada.

Um devoto exemplar.

“Por sua prolongada austeridade e práticas devocionais, Visnu voltou para ele a sua graça. Apareceu ao santo em seu eremitério, concedendo-lhe a realização de um desejo. – Mostrai-me o poder mágico de sua Maya –  rogou Narada, ao que o deus respondeu: – Eu o farei. Segue-me”.

 

Pairou nos lábios de belas curvas do deus, um quase sorriso

 

“Deixando a agradável sombra do bosque em que o eremita se abrigava, Visnu conduziu-o por uma faixa de terra nua que reluzia como metal sob o sol que abrasava, impiedoso. Não demorou para que ambos ficassem muito sedentos. Viram, a alguma distância, os tetos colmados de uma pequena aldeia fustigada pelo calor. Visnu perguntou: – Queres ir até lá buscar-me um pouco de água?

– Decerto, meu Senhor – respondeu o santo, correndo para o distante agrupamento de choupanas. O deus ficou a descansar à sombra de um penhasco, aguardando-lhe a volta.

Chegando ao povoado, Narada bateu à primeira porta que encontrou. Veio abri-la uma bonita donzela e o devoto foi tocado por algo jamais sonhado: o encanto dos olhos da moça; assemelhavam-se aos do seu divino Senhor e amigo. Estático, pasmado, esqueceu o que viera fazer. Doce e ingênua, ela deu-lhe as boas-vindas. Sua voz, como um laço de ouro, rodeou-lhe o pescoço. Movendo-se como num sonho entrou na casa.

A parentela tratou-o com muito respeito embora sem o menor vestígio de timidez. Receberam-no com as honras devidas a um santo, mas conhecido de longa data, há muito ausente. Narada permaneceu em companhia deles, impressionado com o acolhimento caloroso e digno; sentia-se como em sua própria casa. Ninguém perguntou o motivo de sua visita; era como se pertencesse à família desde tempos imemoriais. Transcorrido algum tempo, pediu ao pai da moça permissão para casar-se com ela, o que não surpreendeu ninguém. Tornou-se membro da casa e compartilhou os deveres milenares e os prazeres simples de um lar camponês.

Doze anos se passaram, tinha três filhos. Morrendo-lhe o sogro, tornou-se o chefe da família, herdando e administrando os bens, cuidando do gado e cultivando as terras. No décimo segundo ano, a estação das chuvas foi extraordinariamente violenta: encheram-se os rios, torrentes desceram montanhas abaixo e uma enchente inundou, de repente, o pequeno povoado. Durante a noite, as choupanas de palha e o gado foram arrastados e todos precisaram pôr-se em fuga.

Uma das mãos amparando a esposa, levando à outra dois dos filhos e conduzindo sobre os ombros o terceiro, o menor, Narada partiu a toda pressa.

Abrindo caminho através da mais completa escuridão, açoitado pela chuva, caminhava a muito custo sobre a lama escorregadia, cambaleando através do redemoinho das águas. A carga era maior do que podia suportar e a correnteza arrastava o, envolvendo-lhe as pernas com muita força. Narada tropeçou e o filho que levava aos ombros escorregou, tragado pela noite uivante. Com um grito de desespero, desprendeu-se dos filhos maiores para agarrá-lo, mas era tarde demais. Enquanto isso, a torrente brutal carregou os outros dois e, antes que se apercebesse da extensão do desastre, arrancou-o da esposa, arrastando-o corrente abaixo como a um toro inerte. As águas atiraram-no inconsciente numa praia, sobre uma pequena rocha. Abriu os olhos, ao voltar-lhe a consciência; à sua frente, viu um vasto lençol de água lamacenta. Chorar era o que podia fazer. Chorou.

– Filho! – aquela voz, que lhe soou familiar, quase lhe fez parar o coração. – Onde está a água que foste buscar para mim? Espero por ela há mais de meia hora.

Narada voltou-se. Em vez de água o que viu foi um deserto a rebrilhar ao sol do meio dia. Perto, às suas costas, estava o deus. Ainda sorriam, sem compaixão, as curvas da boca fascinante, que se abriu para a pergunta amável:

 

– Compreendes agora o segredo de minha Maya?

 

 

Nota:
Trecho extraído do livro: “Mitos e símbolos na arte e civilização da Índia”
Heinrich Zimmer. 1ª Edição 1989. 1ª Reimpressão 1993. Ed. Palas Athena.
Páginas 34 a 36.

Autor

O Caminho Espiritual sempre foi meu foco de interesse na vida adulta: estudo, reflexão, meditação, autoconhecimento, crescimento e transformação pessoal. Partilhar o que encontramos nesta jornada também é uma exigência do Caminho. Por isto estou aqui.

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