Totem

Dia 12

Totem


Sento para meditar e de início não consigo me concentrar, embaralhada que estou, com questões de minha vida pessoal.

De repente, do meu eu profundo, vem uma pergunta:

O que eu tenho que entregar Xamã?

Serafim responde:

“A vida.

A vida, como você a entendeu até hoje”!

 

Estou diante da lareira e Serafim está cozinhando os feijões no fogão.

Digo: Serafim, eu sei que isto já está acontecendo, porque a vida no plano material está insustentável. Já não consigo ver a vida como a via antes.

Serafim responde: “Sim. Tudo é energia. Você é Deus.

Ele não está fora de você. Está bem aí dentro”.

 

Isto me provoca uma grande sensação de desamparo.

Penso: abrir mão do Pai? De todos os Pais?

Serafim responde: “Você não está só. Está entre os seus iguais.

Troca!

Dar e receber!

Todo o infinito está dentro de você. Está também dentro de tudo e de todos.

Saber que sabe! Eis a diferença.

Não é que Deus/Deusa, os Mestres, os guias e a perfeição não existam.

Eles existem! Mas são outra coisa. E tudo está dentro de você.

Assim como você está dentro de Tudo O Que Existe.

Dentro e fora!

Esta é a questão.

Em última análise, dentro e fora não existem.

elemental do fogo. Salamandra.

 

Veja as salamandras.

 

Você pode vê-las.

 

Deixe que elas trabalhem no seu corpo, queimando e transmutando tudo aquilo que precisa ser transformado e transmutado.

 

Deixe que elas queimem os véus. Os véus que te protegem das verdades”.

 

Vejo o raio diagonal de Serafim.

Penso com gratidão que estes véus me protegeram enquanto eu fui uma criança.

Não quero mais ser uma criança. Quero ser um xamã de cura.

Serafim diz: “Sim, filha”.

Filha ainda?

“Sim. Aos poucos deixarás de ser criança e poderás acolher e aceitar em você todo o poder que coloca em mim.

Não peças mais do que pode carregar”. Serafim ri.

 

Vejo as salamandras trabalhando em meu corpo de luz.

Elas comem e dançam.

Dançam uma dança vibrante de vermelho e amarelo.

Peço que elas consumam todos os vermes e parasitas do meu corpo.

Elas me dizem que adoram se alimentar, especialmente destes petiscos.

“As redes-véu são mais duras e mais insípidas”. Dizem as salamandras.

Peço a elas que façam a gentileza de comerem estas redes também.

Elas respondem que isto exige um tempero.

Pergunto: qual tempero?

“A gratidão. A gratidão é o tempero que amolece as redes e as torna saborosas. A alegria dá o toque final. Um toque gourmet”.

Rimos todos.

Serafim me diz que estou aprendendo a rir.

Pergunto às salamandras se existe suficiente gratidão e alegria para temperar todas as redes.

Elas me dizem que não.

Minha gratidão não é verdadeira. É como um açafrão fajuto.

E a alegria há muito está faltando na praça.

Peço que elas trabalhem mais um pouco enquanto eu vou buscar o açafrão verdadeiro e precioso e também a alegria de o encontrar.

Peço a Serafim que me ajude nesta tarefa. Ele e meus 3 animais: a águia, a borboleta e a leoa.

Saio com meu arco e flecha nesta dimensão branca e gelada.

Penso que minha gratidão é mental.

Parece que eu tenho que encontrar isto sozinha. Meus animais estão comigo, mas Serafim ficou na cabana cuidando do meu outro eu.

 

cipreste

 

 

Sento-me embaixo de um cipreste. Árvore perene. Sempre verde e cheirosa.

Cheia de resina oleosa.

Me recosto em minha irmã árvore.

 

 

 

Somos um totem

 

águia voando

 

 

      a águia com as asas abertas

 

 

.

.

 

    minha cabeça humana

 

 

 

borboleta azul

 

 

      a borboleta

 

leoa

 

 

      o corpo da leoa

 

 

Muito acima de nós a copa do cipreste.

Seu delicioso aroma.

 

Somos um totem!

 

Oh! Pai Divino!

Peço – não!…não é isto!

Quero! Sim! Esta é a maneira correta!

Recomeço:

 

Oh! Pai Divino!

Quero uma resposta.

 

Imediatamente a resposta vem:

Eu sei!

A gratidão é por mim mesma!

Por ter tido a coragem de largar, deixar para trás, a paz do infinito e assumir uma encarnação na Terra – uma não, várias!  Que me permitiram sentir e ser, a maciez do andar da leoa, sua languidez e força.

Todos os cheiros! Cheiro da terra e de tudo ao redor, sons, luz e calor. Aconchego dos filhotes. Decisão da caça. Fome e saciedade. Rapidez na fuga. Morte.

A leveza e capacidade de mudança da borboleta. Sua vida curta. Vida de lótus, que sai da feiura e rejeição da lagarta para o resplendor das asas de luz.

Ah! A águia!

Senhora soberana dos ares! Certeira e implacável.

A Senhora que Vê! E acredita no que vê. Nem mesmo pensa! Vê e vai!

E que tem a coragem digna de enfrentar a dor da transformação, arrancando na própria carne para dar a si mesma o seu futuro.

Acima de tudo, a copa pontuda do cipreste.

Coroa!

Perene.

Nos altos e baixos, inverno ou verão… está sempre lá.

 

Eu sou tudo isto!

Eu dei a mim esta oportunidade de saber que sou!

 

Volto para o meu corpo deitado. Entramos por uma abertura do coração.

Voltamos meio que embolados: cipreste, águia, borboleta, leoa, eu humano.

Por fim também Serafim é sugado para dentro do meu coração.

Pergunto para as salamandras se o tempero, agora, é o suficiente.

Elas dizem: “julgue você”.

Penso: neste plano não dão colher de chá!

Chego à conclusão que não é o suficiente ainda…

Serafim diz rápido: “porque não”?

 

Outra vez o raio diagonal me perpassa.

Outra purificação com seu cachimbo.

Serafim diz:

 

“um xamã entrega tudo”

 

Fico exasperada! Que gratidão é esta?!

 

Repentinamente me vejo grande e soberana diante da vida.

Tenho um Rei e uma Rainha dentro de mim.

Sou Rei e Rainha.

Tenho a certeza altaneira de que o Universo me escutará porque Somos Um Só!

Sei quem eu sou e sei o que quero!

Tenho certeza que o Universo me escuta e me escutará.

– Não como quem implora.

– Não como quem ordena.

Como quem trabalha junto em parceria produtiva.

 

Vem a clareza que o cachimbo de Serafim dissolveu as teias e os véus que as salamandras não haviam dissolvido.

.

Serafim diz: “Fiz isto porque você me engoliu com a boca do seu coração.

Você fez o que tinha que fazer.

Teve esta clareza e ousadia.

Fez por merecer o tratamento final”! Serafim ri.

“Dignidade

Altivez

Ousadia

Você não é pedinte!

Você faz”!

E agora…

Aos feijões.

Comemos os feijões como iguais.

 

 

 

 

Autor

O Caminho Espiritual sempre foi meu foco de interesse na vida adulta: estudo, reflexão, meditação, autoconhecimento, crescimento e transformação pessoal. Partilhar o que encontramos nesta jornada também é uma exigência do Caminho. Por isto estou aqui.

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