Festa

Dia 22

Festa


 

Sinto a fumaça branca do cachimbo de Serafim penetrando a minha aura na diagonal.

Estou no roncó das maravilhas, a Cabana de Cura.

Acordo suavemente numa cama de areia das dunas onde estivemos antes.

Vejo os raios de sol penetrarem pelas frestas da cabana e, pouco a pouco minha consciência vai chegando.

Logo me recordo, e penso com excitação, que hoje é dia de Festa!

Ao mesmo tempo vem um pesar em saber que este tempo tão bom, da Iniciação, acabou.

Serafim entra na cabana e me diz:

 

“Esteja presente no momento presente!

Deixe o futuro para o futuro resolver.

Você quer controlar tudo”?

 

Ri.

Como sempre, Serafim ri.

 

Só agora percebo que estou nua.

Isto não me incomoda.

A roupa é só mais um dos corpos que ponho e tiro conforme a necessidade.

Serafim me diz que minha roupa cerimonial está sendo lavada e passada. E ri.

Rio também, sei que aqui não se lava nem se passam roupas.

Entendo que minha roupa está sendo preparada de alguma maneira especial, que não imagino qual seja.

 

Serafim me diz que agora vou tomar um banho de luz para ficar à altura das minhas roupas limpas.

Entram minhas 4 irmãs indiazinhas. Também entram as fadinhas, as borboletas, a leoa, a águia e por fim minhas queridas gnominhas, com seus baldes e escovões.

 

Toda esta mulherada (só agora sei que todas são fêmeas!), começa a fazer uma certa algazarra.

Todas estão muito felizes.

Aquilo que eu recebi, recebemos todas!

 

Elas sabem o que fazer, e vão fazendo.

Minhas irmãs índias me trazem uma cuia de leite da terra, que agora sei que é leite de mandioca.

Sagrada e nutritiva raiz.

Bebo o leite e me levanto.

As gnominhas se aproximam com seus baldes e escovões, retirando toda a areia que ficou aderida a mim, e também, outros resíduos, que não preciso mais carregar pela vida afora.

As fadas, se ocupam dos meus cabelos longos, sedosos e negros.

Limpam e escovam os meus cabelos que vão ficando sedosos e brilhantes.

 

A grande águia, está empoleirada num mastro que parece ter sido feito para isto.

Apenas observa.

 

A leoa se acomodou para dormir.

Num canto, repousa tranquila.

 

As borboletas, não param quietas.

Esperam que meu cabelo esteja limpo para que possam vir pousar nele. Enfeitá-lo.

 

Penso no cipreste.

Ele está onde sempre esteve: dentro de mim!

Ao pensar nele, em resposta, ele exala o seu perfume.

Perfume de limpeza e frescor, que se espalha por todo o ambiente.

 

Pronto!

Agora estou muito limpa e perfumada.

 

Estamos todos assim!

Também a cabana está limpa, leve e cheirosa.

 

Percebo que de dentro da Terra, começa a emergir um grande cristal de luz.

É o cristal Turquesa!

Do centro dele, onde me encontro, vejo emergir a luz dourada.

A Turquesa Translúcida emerge completamente, e nela estão todos os xamãs, deste planeta e também de outros (percebo isto pelos seus corpos).

 

Viajando pela luz dourada que vem do centro da Terra, chegam o Rei e a Rainha.

Eles se colocam ao meu lado.

Um de cada lado.

Neste momento, o teto da cabana se abre, e a luz dourada que vem do alto, penetra pelo vértice do Translúcido Cristal Turquesa.

Ao fundir-se à luz dourada, que vem do centro da Terra, cria-se uma intensa luz que ilumina toda a Turquesa Translúcida.

Especialmente seu centro, onde estou, ladeada pelo Rei e pela Rainha.

Penso que este deve ser o banho de luz ao qual Serafim se referiu.

 

Que visão magnífica!

Estou completamente extasiada!

 

Serafim, que é o Mestre de Cerimonia deste Grande Evento (penso, com graça), diz que eu estou nua.

Nua como vim ao mundo.

Nua, como todos devem vir a este mundo também.

 

Serafim diz:

”O ensinamento-vida, esta Iniciação,

Está disponível para todos.

Para todos que desejarem vive-la com alegria e gratidão.

 

Para cada um a Iniciação é diferente”

 

Todos os xamãs balançam a cabeça, concordando.

 

“Para cada um,

Um Mestre diferente se apresenta,

Com seus métodos e maneiras peculiares.

A cabana pode ser uma choupana

Um castelo

Uma nave

O Centro da Terra

O âmago do Sol.

Tudo é o mesmo,

Mas,

Para cada um é um”

Os xamãs concordam!

Balançam as cabeças novamente.

 

Serafim retoma:

 

“É sempre magnífico”!

 

Os xamãs concordam vivamente!

 

“Inesquecível!

Muda a vida de todos os iniciados.

Para sempre”!

 

Serafim me diz que estou nua porque a isto preciso me acostumar.

“Preciso aceitar ser vista por todos, na minha fragilidade, pureza e inteireza.

Esta é mais uma prova pela qual os xamãs precisam passar.

Esta prova não acontece aqui, onde todos são amor.

Acontece no mundo no qual escolhi viver”.

 

Serafim rindo, diz, que no meu mundo, talvez as pessoas joguem em mim seus ovos e tomates, que são seus preconceitos e medos, certezas e opiniões.

 

“Todos nós, os xamãs aqui presentes

Já aprendemos a fazer

Com estes ovos e tomates

Deliciosas omeletes

Nutritivas e saborosas

Você também vai aprender! ”

 

Neste momento, todos os xamãs tiram de dentro das suas roupas mágicas, suas recheadas omeletes, e começam a comer, oferecendo uns aos outros.

Também oferecem à Rainha e ao Rei.

Todos apreciam o sabor de suas omeletes, sabiamente temperadas, com o mais puro açafrão dourado da verdadeira Gratidão.

 

Como ainda não tenho omelete, Serafim me oferece metade da sua.

Como com gosto e também com certa apreensão.

Que logo passa…

Nhun! É bem saborosa a omelete temperada com açafrão e um bocadinho de sal marinho, ou será do Himalaia? Não importa! É sal! Presente das Mães.

 

Terminado o lanche das omeletes, lambemos os dedos com satisfação!

 

Serafim diz que agora vestirei minhas roupas.

Elas serão vestidas de uma forma ritual.

 

Diz que aqui, as roupas são vestidas por baixo da nudez.

 

“Sua nudez continuará aparente para a maioria das pessoas.

Alguns poucos perceberão estas roupas e as ferramentas de trabalho que você fez por merecer”.

 

Primeiro, Serafim me passa as calças. Masculinas, porque a fêmea já vive em mim.

Enquanto vou vestindo, ele vai falando:

 

“Primeiro as calças, porque o mais importante é a ligação com o planeta, onde você escolheu viver.

Mantenha sempre esta conexão!

Dela vem a força, vitalidade e nutrição”.

 

A Rainha Gaia balança a cabeça. Concordando vivamente!

 

Serafim me joga uma blusa que se enfia pela cabeça.

Para isto, preciso erguer meus braços.

Ele vai dizendo:

 

“Ao vestir a camisa, você se lembrará de buscar força, energia e luz no corpo do Rei Sol, seu Pai”.

 

O Rei Sol sorri e me ajuda a vestir esta roupa, que não cobre meus seios nem a minha nudez.

Serafim me diz, que aprenderei com os vegetais a me alimentar de luz, e transformá-la em sólidos troncos, madeira, issabas, flores e alimento.

O cipreste, dentro de mim, balança a sua copa, alegremente, e com isto, perfuma novamente, todo o ambiente.

Serafim me joga agora, meu saco de dinheiro e também meu talismã.

Me diz para colocá-los sob a roupa.

Estas proteções só a mim pertencem.

Ele ri e diz:

 

“O talismã protegerá seu dinheiro, dos gatunos e folgados”

 

Todos riem.

A Mãe Gaia chega a se sacudir, de tanto rir.

 

Solenemente, Serafim, o Rei e a Rainha, instalam o cocar em minha coroa.

Percebo que ele cresceu tanto, que agora chega ao chão.

Serafim diz:

 

“De que serviria a Luz do Conhecimento se tu não a pudesses aterrar?

Trazer, para a vida cotidiana e material

Tudo aquilo que conosco

Tu vieste buscar”.

 

As borboletas, que enfeitavam meus cabelos, cederam o lugar ao cocar e ficam voando em torno de minha cabeça.

Por fim, pousam, e agora enfeitam o cocar.

 

Me sinto tão bonita!

Tão ricamente trajada!

 

Sei que aqui, todos, vestida, conseguem me ver.

 

Serafim me entrega o arco e flecha dizendo:

“ Já és guerreira, corajosa e decidida.

Precisas desenvolver a astúcia e a estratégia do caçador”.

 

A águia, que estava dormindo, acorda, e se permite um aparte:

águia voando

“Você precisa acreditar naquilo que vê!

Mesmo quando é apenas um ponto

Indistinguível no horizonte!

Partir ligeira, como uma flecha!

 Mesmo quando ninguém mais vê

       Aquilo que você vê!

      É assim que faço”!

 

Alguns dos xamãs, os que tem arco e flecha, os sacodem sobre as suas cabeças e dizem em coro:

“Nós também”!

 

Serafim agora me entrega o cachimbo.

Dentro dele está o mundo, mundo que está dentro de mim também.

 

“Você esteve comigo enquanto eu usava o meu cachimbo.

Começou a usar o seu também.

Usando, você irá descobrir os poderes que ele tem.

Não conheço todos os poderes que o seu cachimbo tem!

Conheço os poderes do meu cachimbo.

Eu os aceito e conheço bem.

Esta é a chave que destrava o cachimbo:

Aceitar os poderes que ele-você tem”!

 

Todos os xamãs pegam seus cachimbos e começam a fumá-los.

Também fumo o meu.

Imediatamente, num flash, vejo inúmeros mundos e inúmeras realidades.

Realidades que, de repente, formam uma mandala, em cujo centro está Deus.

No centro não há nada!

Apenas o Vazio.

Sem forma, sem cheiro, sem luz ou cor.

 

Serafim rindo, grita:

 

“Ei! Voltem todos já para cá!

A Festa ainda não terminou”!

 

Todos os xamãs riem e voltam.

Uns mais rapidamente.

Outros, mais devagar.

 

Uma lesminha se move, muito lentamente, aos meus pés.

Penso que ela é a minha lentidão.

Rio.

Estou olhando a lesma a meus pés, quando Serafim me entrega os sapatos:

Mocassins de couro macio e quente.

Confortáveis.

Enquanto calço os sapatos, ele diz:

 

“Que o seu caminho seja suave

Com a nossa proteção”.

 

Sinto o amor, de todos os presentes, se concentrando no meu calçado, que me dá, agora, a sensação de pisar sobre nuvens de algodão.

A leoa desperta de sua soneca:

leoa

“Flexibilidade é a palavra!

Seja flexível, relaxada e preguiçosa!

Como um gato.

Ou um cão.

Guarde sua força de arranque

Para o bote ou

Para a fuga!

No resto do tempo

Relaxe…

Com os olhos entreabertos,

Em total presença e atenção.

Como eu estava fazendo até agora.

Não estava dormindo.

Não durmo nunca!

Porque não me canso à toa”!

 

Todos rimos, mas sabemos que ela diz a verdade: é um estado de consciência específico, ao qual se dá o nome de atenção relaxada!

 

Serafim diz que agora, só falta meu último presente: a minha flauta.

Um grande silêncio se faz.

flauta

 

Serafim me entrega a flauta.

Ritualmente.

 

Eu a recebo, de maneira cerimonial.

 

 

Vou leva-la aos lábios, quando as gnominhas se manifestam.

São como gordinhas senhoras, donas de casa de meia idade.

Estão sempre com seus aventais, baldes e escovões.

Dizem:

 

“Não é possível tocar

Fazer um som belo e cristalino

Se tudo não estiver bem limpo!

A flauta precisa estar limpa e

Limpos também têm que estar

Todos os corpos de quem toca.

Todo o ambiente ao redor.

Por isto, sempre seremos

As suas ajudantes preferenciais.

Que você se lembre de

 Nos chamar sempre!

Faxinas periódicas são muito necessárias

Em todos os “cômodos da casa” e

Também no quintal”!

 

Entendo perfeitamente o que dizem, e sei que elas têm razão: renovar, sacudir sempre, nossos velhos hábitos e relações. Pontos de vista, crenças e convicções!

Concordo com elas.

Fico contente, por ter como ajudantes, senhoras tão limpas e tão dispostas, para realizar este trabalho perpétuo, constante, que é a faxina.

 

Vou levando a flauta aos lábios novamente, quando as fadinhas chegam em grupo, voando levemente.

fadinhas

 

 

“Somos suas fadas madrinhas

Madrinhas desta Iniciação.

 

 

Não precisamos daquele

Pequenino bastão.

Nós mesmas, as fadinhas

Somos varinhas de condão.

Viemos presenteá-la

Com alegria e diversão!

Que a vida lhe seja leve

Alegre

Como a sua imaginação!

 

Ao dizer isto, jogam sobre mim, o brilho dourado das suas asas.

 

Creia sempre na sua imaginação

Ela é tão Real quanto nós

Nós não somos uma ficção.

Somos Espíritos da Natureza

Que dão forma a tudo o que existe.

Em cada folha

Em cada pedra

Grão de areia

Semente, terra ou flor

Você pode nos contemplar

Contemplar o nosso trabalho e

O trabalho dos nossos irmãos.

Somos os construtores das formas

Das formas que abrigam a vida.

Somos da família dos anjos

Temos nossos Mestres e

Somos guardiões.

Estaremos sempre com você

Com leveza e discrição.

Mais perto de você estaremos

Quando trabalhar sorrindo e

Com muita compaixão.

Somos mensageiras

Dos anjos

Dos seus anjos

Guardiões”.

 

Fico emocionada com as fadas, que trazem a benção dos anjos, que ainda não tinham estado presentes nesta minha Iniciação.

Serafim…

Serafim???

Anjo do mais alto escalão da Hierarquia Angélica!

Esta é a informação que agora chega a mim, direto do meu coração!

 

Olho para Serafim, estupefata!

Ele apenas ri e me dá uma piscadela, como quem diz:

 

“Que fique entre nós”

 

Muito emocionada com tudo isto, respiro fundo, e levo a flauta à boca.

O som é horrível! Como na outra ocasião.

Imediatamente começam a aparecer pulgas.

Todos se coçam, sem cerimônia ou hesitação.

Ouço zumbidos de pernilongos…

 

Oh céus!

Que vexame completo

Estou criando

Na minha Iniciação!

Oh não!

Cobras e lagartos penetram

Pelas frestas da cabana!

 

Meu desespero é completo!

 

Penetra em minha aura, o raio diagonal.

A presença salvadora de Serafim!

Que ri, a mais não poder!

 

Como um raio, o raio me recorda:

 

Deixe que a flauta toque a si mesma

Deixe que a flauta se toque

 

Penso:

Eu e minha grande importância!

Minha Nossa Vossa Excelência!

Não tenho que fazer nada!

 

Apenas deixar que a canção se faça!

 

A canção se faz!

 

Pura, leve e cristalina.

Rica de notas, tons e meio tons.

 

Imediatamente me ponho a dançar.

Ou melhor…

Meu corpo dança.

Dança e me carrega.

Me leva por toda a cabana.

Danço no cristal turquesa

Saudando todos os presentes

Que dançam comigo.

Todos dançam!

Uma grande celebração!

 

Nos alimentamos do Amor e da Alegria uns dos outros.

Alegria e Amor que sentimos por todos.

Por toda a Criação.

Saúdo com alegria, especialmente, as minhas 4 irmãs.

Seus nomes: Vento, Tempestade, Chuva e Evaporação.

Atrás delas saímos da cabana, sempre tocando e dançando a minha canção.

Levamos a nossa alegria à aldeia, onde todos também estão alegres com a confraternização.

Minhas 4 irmãs vão na frente.

Depois delas sigo eu, tocando e dançando a canção.

Atrás de mim, Serafim, o Rei e a Rainha.

Por fim, num único bloco, todos os xamãs, meus irmãos.

Nos dirigimos para a mata.

Os limites da aldeia.

Onde cheguei naquela 1ª vez em que Mãe Jaciana me trouxe pela mão.

 

Chegando na mata, minhas 4 irmãs somem.

Atrás de mim, todo o cortejo se dissipa.

Fico só com Serafim.

 

Ele me passa um embrulho.

São minhas roupas comuns.

Me diz:

“Vista-se. Você está nua.

Para onde vai

Vai precisar destas roupas”

 

Coloco a flauta na cintura, onde já estão o cachimbo, o arco e a flecha.

Aperto o cinturão.

Visto minha roupa velhíssima de trilha, do tempo em que fiz o Curso de Guarda-Parque: calça marrom, camiseta branca.

Por cima de tudo, um casaco impermeável verde, com capuz.

Meias grossas, botinas de trekking.

Mochila às costas.

 

Estou pronta!

Para voltar para a minha vida comum, no mundo material.

 

Uso a roupa que mais gosto!

Dentro dela me sinto bem.

 

Serafim me abraça e diz:

 

“Vá em paz e cumpra a sua missão.

Estarei sempre a seu lado!

Em qualquer ocasião.

 

Você sabe…

Iniciação

É início…

Começo

De um novo caminho”

 

Serafim pula pra dentro do meu coração.

Se deita, confortavelmente, numa esteira.

E ri.

 

Lágrimas escorrem pelo meu rosto.

Lágrimas de alívio!

Serafim está aqui!

Ouço Serafim rir.

 

Ergo a cabeça e olho o horizonte.

Não sei como chegarei lá!

 

Ouço:

“Discípulo!

Não há caminho

Se faz o caminho

Ao caminhar”

 

Entro na mata

 

Nota:
Crédito da imagem destacada: Oswaldo Guayasamin

Autor

O Caminho Espiritual sempre foi meu foco de interesse na vida adulta: estudo, reflexão, meditação, autoconhecimento, crescimento e transformação pessoal. Partilhar o que encontramos nesta jornada também é uma exigência do Caminho. Por isto estou aqui.

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