Coroa do Resplendor

Dia 20

Coroa do Resplendor


Estou na cabana deitada na “cama” de folhas.
Desperto, olho em torno e vejo a luz do sol penetrando suave pelas frestas da cabana.
Formam bonitos desenhos estes raios de sol.
Fico apreciando esta luz suave e seus desenhos.
Entram várias índias na cabana e me dão bom dia.
Dizem que é hora de levantar e começar o dia.
São alegres e animadas, como algumas enfermeiras costumam ser.

Me dizem que vamos ao rio.
Hoje vou me banhar no rio.
Fico animada com esta perspectiva.
Deve ser muito bom tomar um banho de rio.
Agora tenho fome.
As índias me trarão algo para comer…
Trazem uma cuia com um mingau branco, que eu como com gosto.
Me dizem que para onde vamos há frutas silvestres que completarão minha refeição.

Saímos da cabana.
O dia está lindo. Ensolarado.
Na aldeia, alguns estão acocorados tomando sol, outros cuidando dos cabelos, uns dos outros. Algumas mulheres passam com suas criancinhas enganchadas na cintura, as maiorzinhas vão atrás da mamãe.
Crianças maiores brincam…
São felizes e leves.
Sem pressa.

Nós seguimos, sem pressa, por uma trilha na mata, que não é muito espessa.
Como é bom o cheiro da terra e da mata.
As borboletas vão conosco.
Vamos cantando, conversando e rindo.
Depois de algum tempo de caminhada chegamos a uma piscina natural com pequena cachoeira.

piscina natural.jpg 7

 

Cercada pela mata, é um lugar protegido e reservado. Para banhos rituais.

Elas me dizem que para os banhos diários, brincadeiras e outras necessidades, vão ao rio aberto, mais abaixo.

Admiro a beleza, calma e pureza deste lugar.
Elas me dão algumas frutinhas para comer e se vão.

Fico ali.
Comendo as frutas e apreciando o momento.

Percebo que aquela ambiência começa a alterar meu estado de consciência.
Começo a perceber pequenos brilhos, pequenos pontos brilhantes.
Logo entendo que são fadinhas, brincando e voejando por ali.
Em seguida, parece que meu corpo começa a se transformar e eu vou aos poucos me tornando um vegetal.
Meu tronco começa a se tornar um tronco de árvore e raízes começam a se alongar e penetrar na terra.
Também lateralmente as raízes se espalham e vão tocar raízes de outras plantas e árvores que aí vivem.
Percebo que meus braços se tornam galhos, que vão se esgalhando mais e mais.
Muitas folhas surgem nestes galhos.
Sou uma pequena árvore bem folhosa.
Não sou nova. Sou de uma espécie que não cresce muito.

Bem… Estou aqui!
Fixada na terra.
Não tenho que ir a lugar nenhum. Só existir.
Isto me traz um grande alívio.
É muito bom não ter que ir a lugar nenhum!
Sinto uma leve brisa em minhas folhas (na mesma hora entra uma leve brisa pela janela do quarto onde medito!).
É bom ter minhas folhas levemente sacudidas pelo vento.
Um raio de sol agora incide sobre mim.
Fico bonita!
Algumas estruturas se abrem em meu corpo para absorver esta luz e calor.
Insetos me povoam.
Alguns comem pequenos parasitas do meu corpo.
Outros depositam seus ovos em mim.

Começa a cair a tarde.
Alguns pássaros chegam e se acomodam para dormir em meus galhos.
Anoitece.
Vaga-lumes.
A leoa chega e se roça em mim, reconhecendo a assinatura vibratória do ser que eu sou.

Noite fechada.
Pios de coruja, sons, silêncio.
Num momento percebo a Lua.
Também ela me ilumina e eu recebo a sua luz.

Pouco antes do amanhecer tem cantoria na floresta.
Muitos cantos e piados saúdam a luz que chega tímida e aos poucos vai se tornando mais e mais forte.
Eu/árvore percebo o raio de luz diagonal.
Serafim chegou.

grande árvore

 

 

 

 

Sou agora uma grande árvore.
Posso contemplar o mar de copas das outras árvores abaixo de mim.
Posso contemplar também todo o entorno e o topo careca onde a águia me saudou.

 

 

 

 

 

“Sou uma grande árvore.

Uma árvore mãe, guardiã de todo este lugar.

Sou como uma sentinela que percebe ventos e tempestades e que se nutre de muito sol e luz.
Meus nutrientes são partilhados, pelas raízes, com as outras árvores menores.
Somos uma grande fraternidade: no alto, no meio e abaixo.
Partilhamos luz, sol, ventos, insetos, sementes e nutrientes.
Partilhamos informação, conhecimento e experiência.
Sabemos que nossa vida é eterna porque ela sempre continua a existir através das nossas sementes (que somos nós) e através do nosso corpo decomposto, que alimenta a nossa espécie e as espécies irmãs.
Somos eternas.
Não temos pressa.
Não precisamos ir a lugar nenhum.
Tudo aquilo que precisamos vem até nós.
De uma forma ou de outra, tudo vem.
Apenas crescemos, para cima e para baixo.
Sem pressa.
O ritmo deste crescimento é o TODO que dá.
Mais sol, mais luz e mais água…
A terra macia se abrindo à passagem de nossas raízes… a terra dizendo: venham, venham para cá.
Quando tudo fica seco, é tempo e hora de me recolher e murchar, deixar que outras espécies irmãs se desenvolvam. É a hora delas crescerem. Atuar.
Assim vivemos xamã.
Desta maneira, também um xamã precisa aprender a viver e atuar”.
Assim falou a grande árvore que compartilhou seu corpo e consciência comigo. A árvore mãe.

Agradeço o ensinamento vida, o corpo e a consciência que esta grande árvore me permitiu compartilhar.
Experimento uma sensação de calma, estabilidade e imortalidade que é muito diferente das sensações que experimento quando estou em minha consciência humana.
Mas, a vida segue, e da árvore preciso apear.
Saio de dentro dela, mais uma vez agradecendo a “hospedagem”. Levo comigo calma e paz.
Saio vestida em minha roupa cerimonial xamânica, com meu arco e flecha e meu cachimbo enfiado no cinto.
Meu cocar realmente cresceu um pouco mais.
Agora me chega ao meio das coxas.
É muito lindo este cocar!
Suas penas são brancas e ele está montado num tecido de fibras trançadas em tear.

Ao deixar a árvore, vejo Serafim.
Ele está à minha espera, e como sempre, ri.
Diz: “Veio tomar banho xamã”?
Respondo: Disseram que sim.
Ele diz: “Já tomastes um banho hoje! Um banho de paz, de saúde e de integração”.
Penso que também tomei um banho de inteligência!
A cooperação é uma estratégia de vida muito melhor que a competição.
Este meu pensamento faz Serafim rir.

Ele me diz que agora vou tomar um outro banho.
Um banho de água que se toma nu.

Tiro meu cocar e o deposito cuidadosamente sobre as raízes de um tronco. Coloco ali também meu arco e flecha e meu cachimbo.
Começo a retirar peça por peça, meu traje cerimonial.
Ao fazer isto, sinto que estou me despojando de todos os meus atributos, de todas as minhas conquistas, bênçãos e reconhecimentos recebidos, e também de todas as minhas proteções.
Estou nua.
A última coisa que retiro é um amuleto xamânico que carregava no pescoço, por baixo da roupa.
Estou absolutamente despojada de tudo o que tenho e sou.
Como um bebê que chega nu ao mundo me entrego a Serafim.

Ele me diz para entrar na água pura e sagrada desta bacia natural.
Vou entrando lentamente, sentindo que a água fria vai me acordando de um certo torpor.
Meu corpo reage ao frio da água com arrepio e tremor.
Vou entrando lentamente, sentindo a água pouco a pouco subir, da cintura ao tronco, aos ombros. Tenho vontade de mergulhar.
Serafim me diz:

“Entregue a coroa”!

Eu mergulho!
Estou completamente dentro da água e, com surpresa descubro que dentro dela consigo respirar.
Com calma, vou descobrindo a beleza do mundo que existe aqui embaixo.
Raízes, lodo, folhas velhas e detritos dos corpos que foram vivos e que aqui estão a se transformar.
Percebo que por trás da cachoeira há uma passagem e por lá desejo me aventurar.
Peço licença à Senhora das Águas, para em seu domínio secreto penetrar.

Um grande peixe que estava diante da passagem, se afasta, e entendo que tenho permissão para aí entrar.
Vou nadando contra a corrente por um túnel subterrâneo que logo se enche de luz e vai dar em outro lugar.

Chego a um salão de caverna, menor do que aqueles que visitei antes.

caverna com água
Sentada sobre uma rocha-trono está a Rainha deste lugar.
Ela se veste de azul claro, cor de água, e tem um grande peixe falante a seus pés.
Saio da água e a saúdo.
Ela me diz que é a Rainha deste lugar.
É a Senhora das Águas. Mora nelas.
Sentou aqui para conversar.
Diz que gostaria de conversar com os humanos e que por isto veio me saudar.
Digo a ela que seu reino é muito vasto (nem sei porque, me lembro do Aquífero Guarani) e muito importante para nós humanos e também para os vegetais e animais.
Ela me diz que com a vegetação conversa sempre.
Suas raízes têm bocas boas de conversar.
Também os animais com ela conversam.
Trocam notícias das terras, dos rios e do mar.
Mas, com os humanos conversa pouco.
Acha que os humanos não gostam de prosear.
Digo a ela que a maioria dos seres humanos não sabe mesmo conversar.
Nem entre eles mesmos.
Com os outros seres que existem, vegetais e animais, eles acham que não é possível conversar.

Rimos juntos:
Que loucura!

Como é possível viver sem conversar?
Como é possível beber e se banhar com a água, sem com ela conversar?
Nem mesmo saudar!
Sem agradecer, a umidade, frescor e vida que a água está a nos oferecer

.
Preciso dizer a ela que também eu tenho sido muito distraída e mal-agradecida.
Imagine, que só agora conversando com ela, me dei conta que a trago em grande quantidade no meu corpo.
Que, na verdade, ela está em todo lugar: nas folhas, nas árvores, na terra, nas pedras, no ar, no corpo dos animais…
Sua presença é constante em toda a vida e em todo lugar.
Ela está nas nuvens, na atmosfera, protegendo a Terra! Filtrando a força e calor do nosso Rei Solar. Suavizando seu ardor masculino…
Suavizando e filtrando também outras forças e energias que vem de muito longe (cósmicas) e que a vida que há na Terra não poderia suportar.

Ela sorri e diz que sim.
Que tudo isto ela é e faz.
E muito mais!

Fico curiosa com isto!
Ela me diz:

“Xamã!
Eu esculpo catedrais!
Como esta, dentro da qual você está agora, outras que já visitou e mais aquelas que visitará!
Sou feita de perfeitos cristais de luz que materializo de várias formas.
Para todos aqueles que os quiserem ver.
Esta sou eu xamã!
Converse comigo sempre e venha outras vezes me ver.
Traga notícias do seu mundo, que pelo seu olhar, quero conhecer”!

sra das aguas 2

 

 

Ela se ergue, e se expande num enorme ser que toma a forma de uma imensa cachoeira, que cai de muito alto numa das paredes da caverna.

 

 

Pergunto se posso me banhar em suas águas e ela, cantando me diz que foi isto o que eu aqui vim fazer.

 

Ouço um riso claro, divertido e cristalino, que ecoa por todo o salão.

 

Me aproximo da enorme cachoeira, sabendo que ela deve cair com muita pressão.

 

Primeiro me deixo molhar pelo vapor e pelos respingos, que sobem da água que bate no chão.
Pouco a pouco vou entrando no centro do jorro e me deixo banhar por ele.

 

Quando cai com força sobre o topo da minha cabeça, me lembro da última recomendação de Serafim:

“Entregue a Coroa”!

Eu a entrego a ela e a mim!

O forte impacto da água ativa minha glândula pineal que começa a emitir uma luz dourada, muito intensa, que se expande.
Toma a forma de um cocar ou coroa. Dourada.

coroa sem coluna clara

Olho em volta, e vejo que tudo mudou.
Sou eu mesma que estou no centro de um grande resplendor.
Tenho a veste da Senhora das Águas (a grande cachoeira) e tenho em minha cabeça a Coroa do Resplendor.

Estou num palácio abençoado de muita luz e muito amor.
Sei que este palácio é fruto da luz que eu irradio.
Um lindo palácio azul claro dourado. de muita luz e muito amor.
Sei que este palácio está no Himalaia, em meio às suas neves eternas.

A água mais pura!
Os mais puros cristais de água pura.

Escuto:

“Todos os seres de conhecimento, ao menos uma vez, aqui vem.
Receber a purificação desta água pura, em sua pureza original.
Uma purificação de todas as emoções de todas as suas encarnações, humanas e animais.
Aqui é substituída a água que carregam em seu corpo, por uma generosa porção desta água original”.

Me deixo receber esta enorme dádiva e percebo a fumaça branca do cachimbo de Serafim penetrando em minha aura humana e em meu corpo de deusa.

Serafim diz:
“Ei xamã! Não faça nada agora. Apenas deixe acontecer”

A fumaça vai se espalhando por todo o meu corpo.
Outra vez me vejo encapsulada na fumaça do cachimbo de Serafim.
Dentro da capsula, existe água e eu flutuo dentro dela, ao sabor de pequenas ondas.
Sou como uma criança, boiando e chapinhando.
Brinco e me divirto dentro desta água.
É gostoso ficar aqui!
Brincar aqui!
Num momento, tenho uma boia plástica com cara de cavalinho…
Em seguida a boia some e eu me vejo no meu corpo adulto, brincando na piscina natural onde o banho ritual começou.

“Ei, ei, ei xamã!
Saia daí!
O banho acabou”!

Percebo que é Serafim, gritando para mim.
Ele me espera na margem. Tem uma toalha nas mãos.
Eu rio e penso: Serafim parece uma mãe zelosa!

Obediente, saio da água e me embrulho.
Percebo que estou com muito frio.
Tenho consciência da água azul e pura dentro do meu corpo.
Estou completamente azul claro por dentro.
Uma borboleta branca passa voando enquanto me aqueço com mais um cobertor e uma pequena fogueira que Serafim acendeu.

Penso que não agradeci à Senhora das Águas.
Serafim, que conhece os meus pensamentos, diz:

“Agradeça a ela a toda e qualquer hora. Ela está dentro de você!
Esta é a gratidão que ela deseja: o reconhecimento da sua presença invisível em tudo o que existe”!

Claro!
Rio da minha cegueira.
Tocando todo o meu corpo, agradeço à Senhora das Águas a sua presença aqui e em mim.
E também em tudo o que existe: nas folhas, nas árvores, na terra, nas pedras, nos rios, no mar, no ar.

Oh Senhora!
Que permeia toda a vida
Dentro e fora
Que estará sempre a me acompanhar.
Salve Senhora!
Senhora das Águas
Rainha de Todas as Águas
Das águas do Fogo, da Terra e do Ar!
Saravá!

Outra vez me vejo dentro do vermelho dourado do Amor Encarnado. *1
Mais um útero. Mais um parto.
É bom nascer e existir!

Este útero, me pare num rio… e lá sigo eu por ele.
Encontro as índias, que estão nas margens, lavando algumas coisas.
Elas acenam me chamando. Vou ao encontro delas.
Quando chego à margem, me dizem que agora voltamos para a cabana.
Percebo que carregam meu traje xamânico, arco e flecha, cachimbo e cocar.

Entramos na cabana.
Serafim aí está.

Prepara para mim uma cama de nuvens com seu cachimbo ritual.

Ri e diz que quando as crianças brincam na água, ficam muito cansadas.
Preciso descansar e assentar.

Mal me jogo na cama de nuvens, estou a adormecer.
Murmuro agradecimentos a todos, que fazem um gesto displicente com a mão como resposta.
Saem todos.
Mergulho num sono profundo.
Ritual.

 

 

Nota: *1- Digitando este texto pensei: os nortistas e nordestinos chamam a cor vermelha de encarnado!

 

 

 

 

 

 

Autor

O Caminho Espiritual sempre foi meu foco de interesse na vida adulta: estudo, reflexão, meditação, autoconhecimento, crescimento e transformação pessoal. Partilhar o que encontramos nesta jornada também é uma exigência do Caminho. Por isto estou aqui.

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