Conclusão

Dia 21

Conclusão


 

Me vejo vestida pela Senhora das Águas.

Tenho na cabeça a Coroa do Resplendor.

Ao mesmo tempo, vejo meu corpo azul por dentro.

A água pura dentro de mim.

 

Acordo na Cabana de Cura, em meu leito de nuvem/fumaça branca.

Como é macio este leito!

De uma maciez e acolhimento que nunca experimentei nada igual.

“Flocos de algodão”.

 

Acordo e olho em torno.

Um dia ensolarado penetra pelas frestas da minha escuridão.

Fico simplesmente desfrutando esta maravilha e ouvindo uma algazarra de passarinhos do lado de fora. Não são maritacas, que costumam fazer algazarra. Não sei que pássaros são.

Apenas fico.

Agora no silêncio.

 

Serafim entra na cabana e me pergunta como estou.

Digo que estou macia e tépida.

Ele ri e eu rio também.

 

Me diz que o processo da Iniciação se aproxima da sua conclusão e que daqui por diante precisará de minha total presença no momento presente: sem distrações, sem divagações e sem ruminação.

É preciso que eu saia da minha mente, na qual me refugiei a vida inteira.

Me diz: “encarnamos para viver no mundo e com ele.

Senão, para que precisaríamos de um corpo? Na verdade, vários corpos, uns dentro dos outros…

Poderíamos ser apenas uma mente vagando por aí”.

Ri.

Penso que os diversos corpos são como camadas de roupa que a gente tira e põe, conforme a necessidade.

Ao meu pensamento, Serafim responde: “Sim. É isto mesmo. Mas, lá está você, dentro da sua mente outra vez”!

Verdade Serafim!

É muito difícil criar novos hábitos.

 

Ele me diz que devo me levantar porque vamos começar a trabalhar.

Me levanto e vou pegar meu arco e flecha e cachimbo.

“Deixe. Não vai precisar deles por hora”.

 

Entram na cabana as 4 índias.

Me trazem uma vasilha de água para que eu lave meu rosto e mãos.

Trazem também uma cuia de mingau branco feito com o leite da terra, que tomo com gosto.

Me sinto mais renovada e mais desperta agora.

 

Serafim me diz: “Agora vamos caminhar.

Pegue suas armas e seu cachimbo”.

 

Saímos da cabana.

A aldeia está como sempre, leve e tranquila.

Ele me diz que hoje vamos caminhar pelo deserto.

Sem água, sem plantas para nos acompanhar.

 

Eu o sigo, e logo caminhamos por um deserto de areia e poeira.

Penso: o que viemos fazer aqui?

Imediatamente me digo para parar de pensar.

Apenas ser.

Sinto a areia em meu rosto e nas minhas mãos, porque de resto estou inteiramente vestida com minha roupa cerimonial.

O mesmo se dá com Serafim.

É difícil não pensar!

Um pé de vento venta areia em nossa direção.

Me abrigo atrás de Serafim, que segue na frente.

Encontramos um lagarto.

Serafim o saúda e ele responde ao cumprimento.

Percebo que Serafim é conhecido por aqui.

Eu não.

Sou nova neste lugar.

Lá estou eu a pensar!

 

Seguimos e encontramos uma grande duna.

Sentamos a seu pé e nos recostamos nela.

Sentada, olho o horizonte, que me parece infinito, e novamente me pergunto: o que viemos buscar?

Serafim olha para mim.

Já sei! Estou a pensar!

 

Relaxo e olho em torno: areia, areia e céu azul.

Há também um sol forte e abrasador.

Nossa roupa nos protege. O cocar protege a cabeça.

Protege do sol a nossa coroa.

 

Olhando o horizonte, percebo, de repente, que muita gente se aproxima ao longe.

Sinto uma certa apreensão.

Vejo Serafim tranquilo e isto me tranquiliza.

Penso: deve ser uma reunião.

 

As pessoas vão se aproximando e percebo que são guerreiras, preparadas para a guerra, em seus trajes rituais.

guerreiras

 

Passam por nós sem nos ver!

Fico intrigada com isto!

Serafim me diz: “com isto não precisamos nos envolver.

Estamos no mundo, mas escolhemos a Realidade que queremos viver”.

 

De repente, se materializa diante de nós um Parque de Diversões: roda gigante, carrossel de xícaras e de cavalinhos!

Até uma Barca Viking consigo perceber!

roda gigante

 

 

Sentados estamos, sentados ficamos.

Sem nos mexer e sem nos envolver com esta visão.

 

 

Ela logo some, da mesma forma que surgiu.

Era uma ilusão!

Como os guerreiros.

 

Penso nas alucinações que as pessoas têm nos desertos.

Serafim me diz:

 

“Não são alucinações do deserto.

Não temos os outros sintomas: sede, cansaço…

São apenas ilusões.

Ilusões que materializamos para nos relacionar com elas.

Tudo na vida é relação”.

 

Me diz que posso materializar o que quiser, e me relacionar agora com qualquer ilusão.

 

Logo penso no dinheiro.

Preocupação constante de quem vive uma vida material.

 

Imediatamente chove sobre nós

 Um monte de notas de dinheiro!

São muitas.

A maioria do mais alto valor.

Estamos completamente ricos

Milionários!

 

Fico sem saber o que fazer com tudo isto.

Como seguir adiante?

 

Serafim permanece sentado.

Eu me levanto e pego no dinheiro para ter certeza de que ele é de verdade. Material.

 

Serafim me diz que é tudo meu.

Ele não precisa de nada.

 

Me pergunta o que quero fazer com tudo isto que agora tenho.

Digo para ele que eu tenho um sonho em minha vida material.

Tenho o sonho de estabelecer uma comunidade espiritual.

Um lugar onde eu possa viver com outras pessoas que também vivem um caminho espiritual.

Um lugar de paz e com uma vibração tão alta que possa ajudar outras pessoas a encontrar e viver sua vida espiritual.

Um lugar que seja também uma reserva de proteção ambiental.

Há muito trago este sonho comigo, mas na vida material isto exige muito dinheiro, para comprar as terras, levantar as construções e manter todo o lugar.

 

Serafim diz que entende o que digo.

Compreende a vida material.

 

Me diz para pegar o meu cachimbo.

Fumamos.

As fumaças dos nossos cachimbos se misturam e se espalham em tudo ao nosso redor.

A fumaça vai recolhendo e juntando todo aquele dinheiro espalhado.

Ele vai sendo juntado e compactado pela fumaça.

Por fim tudo aquilo cabe na palma de uma mão.

Serafim aponta para um saquinho que trago pendurado em meu pescoço e me diz: “Guarde aí e leve com você”.

 

“Há algum outro sonho que você queira realizar”?

 

Nesta hora me dou conta que este sonho da comunidade espiritual, o sonho do Grande Ilê materializado, é apenas parte de um sonho muito maior!

 

Meu Grande Sonho é o Planeta!

 

O planeta inteiro sendo este lugar!

Um lugar de encontro.

De amor e de abundância!

(Serena, a gata, chega e deita ao meu lado)

Onde todas as espécies vivas possam prosperar.

Aprender umas com as outras.

Viver, crescer, trocar.

Me lembro de Eduardo Galeano: “a utopia serve para caminhar”.

Choro agora.

Choro emocionada ao perceber que o meu sonho é muito maior!

Tão grande, tão imenso, que nem a mim mesma eu ousei confessar!

Choro, choro, choro muito!

 

Serafim apenas está comigo.

Sem julgar.

 

Passado o choro, me diz:

 

“Este é o sonho de muitos!

Algum dia

De alguma maneira

Se realizará”!

 

Serafim me diz que eu já tenho o meu dinheiro, para uma parte deste sonho realizar.

Diz que vou precisar de mais uma coisa importante, e que ele vai me presentear.

Retira de dentro da sua roupa uma flauta.

Branca.

Igual à sua.

Não, não é igual!

Alguns desenhos que estão no corpo da flauta são diferentes.

As flautas são individuais.

Me pergunta se eu sei para que servem as flautas.

 

Sei!

Para tocar e dançar.

Para despertar outros para o seu próprio caminho.

Para acordar!

 

Serafim diz que sim.

“Tudo isto é verdade. Mas, há muito mais:

Tocar, cantar e dançar a nossa própria música!

Isto produz alegria.

A alegria de tocar e dançar”.

Diz que eu preciso aprender a tocar este instrumento, e preciso aprender a dançar.

“À medida que você for tocando, irá aprendendo a tocar e a dançar.

Por mais que se toque o instrumento, ele sempre nos revela surpresas, novas possibilidades, novos sons.

Um refinamento constante da arte de tocar e dançar”.

Ele diz que toca a flauta dele há muito tempo.

Toca bem, mas sabe que ainda pode se refinar.

 

Fico muito emocionada e agradecida pelo presente.

Recebo agora a flauta, solenemente, em minhas mãos.

A examino com amor e atenção.

flauta

 

Tenho em minhas mãos a flauta que toca a minha canção.

Serafim diz:

“Toque”!

 

Eu a levo à boca e começo a soprar.

A flauta emite uns guinchos desafinados.

Serafim ri muito!

Se sacode de riso.

Logo está a rolar.

Rola de rir.

 

Com dificuldade, por causa do ataque de riso, me diz:

“Assim você só atrairá para a sua vida, cobras e lagartos, pulgas e pernilongos”.

E ri muito. A mais não poder!

Rio também. Até chorar de rir.

 

Serafim diz: “Você aprenderá”!

 

Enxugo as lágrimas do riso, respiro fundo.

Tento tocar de novo.

 

Desta vez é diferente.

Parece que a flauta toca sozinha, e me ensina a tocar.

Ainda é um pouco desafinado.

Penso que é parecido com aprender a incorporar: nossos músculos estão acostumados a se mover de uma certa maneira, mas a entidade incorporada usa estes mesmos músculos de uma forma diferente…

 

Pouco a pouco vou aprendendo a ceder espaço à flauta.

Deixo que ela me toque

Toque a si mesma, através de mim.

 

A música, agora, é mais melodiosa, e eu começo a dançar.

Se faz necessário dançar.

Preciso levantar e dançar.

Toco a flauta e danço.

Como é bom!

É uma música leve e rica, gostosa de dançar.

Tocar e dançar é tudo o que existe.

 

Outro estado de consciência se instala em mim.

Toco, canto e danço e já não quero parar.

 

Passado algum tempo, Serafim grita:

“Ei xamã!

Você terá toda a sua vida para tocar.

Volte aqui agora.

Venha cá”!

 

Desperto do estado fascinado em que estava, ao ouvir Serafim me chamar.

Me aproximo dele (estava longe!), ainda um pouco confusa.

Ele me diz:

“Sente aqui. Vamos comer e beber. Vamos aterrar”

Tira de dentro da sua roupa um embrulho onde há uns biscoitos bem secos e frutas secas.

Do outro lado da sua veste, tira um cantil de couro animal.

Tem água dentro.

Penso que a roupa de Serafim é mágica.

Tem de um tudo dentro dela!

Ele, pra variar, responde aos meus pensamentos.

Diz:

 

“A sua roupa também é mágica.

Você é capaz de materializar tudo aquilo que deseja e precisa.

Só precisa em seu poder acreditar.

Saber que sabe!

É isto que faz a diferença.

É o pulo do gato.

 Lembra-se”?

Há uma gata comigo, enquanto medito.

Serena

É Serena, a gata do vizinho que me adotou, e que vem sempre me visitar.

Digo para Serafim:

 

Já materializei o gato!

Só falta ele pular!

 

Serafim ri divertido.

Eu rio também.

Me oferece a comida e começamos a comer.

 

Agora chove.

Chove no deserto, veja você!

 

Não nos abalamos com a chuva e continuamos a comer.

Bebo de seu cantil.

A água é boa.

Me lembro da Senhora das Águas.

 

Deitamos para receber a chuva em nossos corpos, participando da alegria do lugar, que recebe esta chuva rara com gosto e prazer.

Sei que as moléculas que compõem este lugar, abrem estruturas internas para esta água receber e armazenar.

 

Receber é isto!

Abrir certas estruturas internas.

Senão, nada recebemos de fato.

As coisas apenas passam por nós!

 

Sei que durante muito tempo tive dificuldade em receber.

Achava que apenas deveria dar.

Que bobagem!

Dar e receber, é tudo uma coisa só.

 

Abro agora as minhas estruturas internas para receber completamente este momento que vivo:

 

O sol, a luz, a chuva, o céu.

As estrelas.

Sei que estão lá!

O maior presente que eu recebi da vida:

 Serafim

Que me ensina com riso, graça e amor

.

A areia, agora molhada.

Minha flauta.

Meu saco de dinheiro.

Arco, flecha e cachimbo.

Minhas lágrimas de gratidão!

Minha roupa xamânica mágica.

O cocar branco que me chega aos joelhos.

A capacidade de materializar!

 

Abro as estruturas internas

Microscópicas

Abro bem

Recebo tudo isto!

 

Recebo também outro presente:

A Vida

Aventura fascinante:

Horrorosa, calma, excitante!

Tudo junto

Abraço tudo!

Aceito tudo!

Por fim, me abraço.

 

Gosto de mim.

Desta forma material que, desta vez, escolhi para viver a aventura fascinante.

Também gosto de ser aquela consciência sem forma que viaja pelo espaço.

 

Serafim me chama.

“Xamã, hoje você ganhou um presente.

A vida é troca.

É preciso deixar algo aqui”.

 

Sei o que devo deixar!

Devo deixar o DEVO!

 

Serafim me diz:

“Sim! O sentido do DEVER que sempre regeu a sua vida.

Daqui para a frente, te é exigido mais.

Não deves nada para ninguém.

Tudo o que tens te foi dado na Energia da Graça.

Seja grata.

E isto é tudo!

Daqui para a frente precisas ser inteira.

Fazer e Ser apenas aquilo que a tua alma deseja”.

 

Sei bem que Serafim se refere à desejo da alma, que é muito diferente de caprichos!

Desejo diz respeito a permitir que a alma se expresse.

Refinar a escuta dos Desejos da Alma, que é a forma que ela tem de se comunicar.

Sei como isto é difícil na vida cotidiana de “deves”, pressas, obrigações e expectativas sociais.

 

Ouvir a alma

Perguntar a ela o que deseja

Viver para a expressar.

 

Serafim encurta esta conversa:

 

TOCAR A FLAUTA

E

DANÇAR

 

Ele me diz que agora vai me ajudar a retirar o dever dos meus corpos.

Estende suas mãos em direção ao meu plexo solar.

brasão

 

Retira de lá de dentro um Brasão de Nobreza.

É muito grande!

Penso: como cabia lá?

Como nunca o vi?

 

O Brasão está sujo e empoeirado.

Parece que esteve pendurado na parede de um castelo vazio. Desativado.

 

 

Serafim diz:

“Bem… Você não precisa mais disto.

Vamos entregar para as areias.

Se alguém precisar, certamente o encontrará”.

Serafim diz que ele não é de todo mal.

“Pode ser útil para algumas pessoas.

Pessoas que são folgadas.

Para elas, pode ser de grande utilidade”.

Serafim ri.

Rio também.

“Vê? Não é lixo!

É um presente.

Uma destas joias que as pessoas podem encontrar, quando passeiam pelos seus desertos”.

 

Entregamos solenemente o Brasão às areias, que imediatamente o recebem e engolem.

Já não o podemos ver.

 

Serafim me diz que fiz as contas de forma errada.

O tempo é diferente nas diversas dimensões.

A Iniciação acabou!

Se concluiu hoje.

 

Pergunto: Como assim? Não tem uma solenidade?

 

Quero Festa!

 

Serafim faz uma mesura teatral:

“Seus desejos são ordens, minha Rainha”!

Rimos os dois.

 

Caminhamos abraçados.

Saindo do deserto.

 

Autor

O Caminho Espiritual sempre foi meu foco de interesse na vida adulta: estudo, reflexão, meditação, autoconhecimento, crescimento e transformação pessoal. Partilhar o que encontramos nesta jornada também é uma exigência do Caminho. Por isto estou aqui.

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